Página Inicial Mapa do Site FAQ Diminuir o tamanho da fonte Resturar o tamanho da fonte Aumentar o tamanho da fonte Versão em contraste Versão normal Buscar
Pol > Em Debate > Direitos Humanos >
Imprimir Enviar RSS
12.09.2005
Carta aberta da ação solidária

Há tantos modos de pensá-la: na mesa, marcada, branca, aberta, confidencial, magna, de alforria... Enfim, o que é uma carta? Por que escrevê-la?!

Embora persistindo questões acerca de sua definição e destino, é costume iniciá-la com boas maneiras: queridos amigos, caro colega, prezados companheiros, ao leitor, senhor presidente ou, simplesmente, “olá”!

Questões de forma e estilo podem se impor: casualmente redigida? A propósito de qualquer assunto?  Em papel especial? Com margem direita?

Algumas também podem ser as intenções de quem as escreve: dar notícias, fazer perguntas, selar compromissos e quem sabe mais o quê, tão surpreendentes são as razões humanas e macio, o papel?

Embora uma carta tenha também os seus mistérios, encantos e exigências, escreve-se, sobretudo, para alguém distante. E, como pensar esta distância, senão como uma impossibilidade mais ou menos provisória, quanto ao tempo e espaço?

Distâncias há, no entanto, que não se vencem com o passar das horas ou pelo uso de engenhocas destinadas a reduzirem os tempos e os espaços da natureza. Os sociólogos sabem e os antropólogos, também, até os economistas, que há distâncias que concernem à cultura, à classe social, à religião, à cor. Formas tradicionais de dominação, em qualquer lugar, sob vários pretextos.

Chamadas psíquicas, diz-se às vezes de distâncias engendradas por bloqueios, traumas e resistências, tão comuns ao comum dos homens, a serem repensadas em terapêuticas nem sempre bem estabelecidas: drama familiar? Natureza humana? Vicissitudes históricas? Armadilhas do social?

Uma outra distância, que talvez se possa dizer ético-política, mantém o indivíduo atado a ele mesmo, impedindo-o de falar com e para o coração: “não sei, não quero saber, tô fora!” Em tempo tão árido, quem se importa, se apenas o dinheiro deve estar no bolso? Não se aceitam nem se oferecem intimidades: hiper individualização? Excessos do urbano? Domínio do privado? Socialidade pós-moderna?

Quanto a esta distância, ainda não se conhece a Engenharia ou a Medicina capaz de tratá-la, podendo-se afirmar que os vários modos de administrá-la não têm sido senão os meios mesmos de sua produção.

Mas, o que se pensar quando este distanciamento ético-político tenta se estabelecer como a forma social da nova ordem mundial? A que dilaceramentos propõe-se, adicionando, às dificuldades usuais da existência, doses extras de sofrimento?

Acaso alguém acredita que, subordinando-se todas as esferas da vida ao mercado, que se reduzindo toda a idéia de povo e cultura a variáveis demográficas, que se restringindo direitos humanos e de cidadania em nome da segurança, que se abordando toda a  diferença com suspeição e toda a pobreza com indiferença, que  se segregando todos os indesejáveis em guetos e periferias mundiais, ou mesmo os aprisionando sem acusação formal e sem julgamento, chegaremos a um mundo mais justo? Mais democrático?

Acaso a morte do brasileiro Jean Charles de Menezes, assassinado com vários tiros pelas costas, por policiais britânicos à paisana, pode ser justificada como “polícia certa, homem errado”, como defendido em artigo de jornal?  Da mesma forma, pode-se contabilizar apenas como “perdas”  as  milhares de  mortes de civis, desde a invasão americana ao território do Iraque em março de 2003?

Sabemos hoje o que acontece quando se toma uma cultura, uma classe, um povo, uma raça ou uma sociedade como modelo de civilidade e como representante do humano, do normal, do verdadeiro: imediatamente o diferente é definido como inferior, não humano, incompetente, deficiente, atrasado, caipira, vagabundo, decadente, troglodita, pré-histórico, eixo do mal – a lista poderia estender-se bastante. Foi assim no passado, no Brasil Colônia, quando se consentiu na escravização de povos indígenas e africanos. É assim ainda hoje, em um processo que podemos entender como de recolonização do Brasil, quando ainda se consente no extermínio de jovens negros e pobres, abatidos aos milhares todos os anos nas “guerras” entre grupos rivais ou com a polícia.

Na medida em que a situação atual aponta para a permanência de um grande contingente populacional mundial vivendo em condições de extrema pobreza e sofrimento e também na medida em que algumas vozes começam a advogar a supressão dos Direitos Humanos e da cidadania como política de segurança, as  Comissões de Direitos Humanos do Sistema Conselhos de Psicologia vêm a público registrar  a sua preocupação com este estado de coisas,  bem como se solidarizar com os familiares de Jean Charles, manifestando sentimento de imenso pesar e indignação pelo roubo cruel da vida do jovem brasileiro e pelo crime cometido contra os Direitos Humanos, conclamando a todos a se posicionarem a favor da vida, contra a miséria, o extermínio, a segregação, o racismo  e a tortura, onde quer que existam.

Daí que, embora não se possa pressupor ingenuidade, se uma carta configura-se às vezes como enigma para quem a recebe, ela é sempre um risco para quem a escreve: existirá um bom transporte que a leve intacta a seu destino? Chegará a tempo e oportunamente?  Encontrará acolhida?

Porque toda carta tem a esperança de um gesto, um fato, um ato que a desate e que a faça existir, subscrevemo-nos;

Comissões de Direitos Humanos do Sistema Conselhos de Psicologia



Divulgação

Não há conteúdo relacionado a este objeto...
Palavra-chave:

Imprimir Enviar RSS

04.03.11 - Relatório de Acompanhamento de Proposições em Tramitação no Congresso Nacional Relatório de acompanhamento de proposições em tramitação no Congresso Nacional - Conselho Federal de Psicologia - Fevereiro de 2011.
13.02.09 - Relatório de Acompanhamento de Proposições em Tramitação no Congresso Nacional Relatório de Acompanhamento de Proposições em Tramitação no Congresso Nacional - Conselho Federal de Psicologia - Janeiro de 2009.
06.12.10 - Relatório de Acompanhamento de Proposições em Tramitação no Congresso Nacional Relatório de acompanhamento de proposições em tramitação no Congresso Nacional - Conselho Federal de Psicologia - Dezembro de 2010.
17.11.10 - Publicação - FALANDO SÉRIO sobre prisões, prevenção e segurança pública

1
/pol/cms/pol/debates/direitos_humanos/.org.br
12.09.2005
Carta aberta da ação solidária

Há tantos modos de pensá-la: na mesa, marcada, branca, aberta, confidencial, magna, de alforria... Enfim, o que é uma carta? Por que escrevê-la?!

Embora persistindo questões acerca de sua definição e destino, é costume iniciá-la com boas maneiras: queridos amigos, caro colega, prezados companheiros, ao leitor, senhor presidente ou, simplesmente, “olá”!

Questões de forma e estilo podem se impor: casualmente redigida? A propósito de qualquer assunto?  Em papel especial? Com margem direita?

Algumas também podem ser as intenções de quem as escreve: dar notícias, fazer perguntas, selar compromissos e quem sabe mais o quê, tão surpreendentes são as razões humanas e macio, o papel?

Embora uma carta tenha também os seus mistérios, encantos e exigências, escreve-se, sobretudo, para alguém distante. E, como pensar esta distância, senão como uma impossibilidade mais ou menos provisória, quanto ao tempo e espaço?

Distâncias há, no entanto, que não se vencem com o passar das horas ou pelo uso de engenhocas destinadas a reduzirem os tempos e os espaços da natureza. Os sociólogos sabem e os antropólogos, também, até os economistas, que há distâncias que concernem à cultura, à classe social, à religião, à cor. Formas tradicionais de dominação, em qualquer lugar, sob vários pretextos.

Chamadas psíquicas, diz-se às vezes de distâncias engendradas por bloqueios, traumas e resistências, tão comuns ao comum dos homens, a serem repensadas em terapêuticas nem sempre bem estabelecidas: drama familiar? Natureza humana? Vicissitudes históricas? Armadilhas do social?

Uma outra distância, que talvez se possa dizer ético-política, mantém o indivíduo atado a ele mesmo, impedindo-o de falar com e para o coração: “não sei, não quero saber, tô fora!” Em tempo tão árido, quem se importa, se apenas o dinheiro deve estar no bolso? Não se aceitam nem se oferecem intimidades: hiper individualização? Excessos do urbano? Domínio do privado? Socialidade pós-moderna?

Quanto a esta distância, ainda não se conhece a Engenharia ou a Medicina capaz de tratá-la, podendo-se afirmar que os vários modos de administrá-la não têm sido senão os meios mesmos de sua produção.

Mas, o que se pensar quando este distanciamento ético-político tenta se estabelecer como a forma social da nova ordem mundial? A que dilaceramentos propõe-se, adicionando, às dificuldades usuais da existência, doses extras de sofrimento?

Acaso alguém acredita que, subordinando-se todas as esferas da vida ao mercado, que se reduzindo toda a idéia de povo e cultura a variáveis demográficas, que se restringindo direitos humanos e de cidadania em nome da segurança, que se abordando toda a  diferença com suspeição e toda a pobreza com indiferença, que  se segregando todos os indesejáveis em guetos e periferias mundiais, ou mesmo os aprisionando sem acusação formal e sem julgamento, chegaremos a um mundo mais justo? Mais democrático?

Acaso a morte do brasileiro Jean Charles de Menezes, assassinado com vários tiros pelas costas, por policiais britânicos à paisana, pode ser justificada como “polícia certa, homem errado”, como defendido em artigo de jornal?  Da mesma forma, pode-se contabilizar apenas como “perdas”  as  milhares de  mortes de civis, desde a invasão americana ao território do Iraque em março de 2003?

Sabemos hoje o que acontece quando se toma uma cultura, uma classe, um povo, uma raça ou uma sociedade como modelo de civilidade e como representante do humano, do normal, do verdadeiro: imediatamente o diferente é definido como inferior, não humano, incompetente, deficiente, atrasado, caipira, vagabundo, decadente, troglodita, pré-histórico, eixo do mal – a lista poderia estender-se bastante. Foi assim no passado, no Brasil Colônia, quando se consentiu na escravização de povos indígenas e africanos. É assim ainda hoje, em um processo que podemos entender como de recolonização do Brasil, quando ainda se consente no extermínio de jovens negros e pobres, abatidos aos milhares todos os anos nas “guerras” entre grupos rivais ou com a polícia.

Na medida em que a situação atual aponta para a permanência de um grande contingente populacional mundial vivendo em condições de extrema pobreza e sofrimento e também na medida em que algumas vozes começam a advogar a supressão dos Direitos Humanos e da cidadania como política de segurança, as  Comissões de Direitos Humanos do Sistema Conselhos de Psicologia vêm a público registrar  a sua preocupação com este estado de coisas,  bem como se solidarizar com os familiares de Jean Charles, manifestando sentimento de imenso pesar e indignação pelo roubo cruel da vida do jovem brasileiro e pelo crime cometido contra os Direitos Humanos, conclamando a todos a se posicionarem a favor da vida, contra a miséria, o extermínio, a segregação, o racismo  e a tortura, onde quer que existam.

Daí que, embora não se possa pressupor ingenuidade, se uma carta configura-se às vezes como enigma para quem a recebe, ela é sempre um risco para quem a escreve: existirá um bom transporte que a leve intacta a seu destino? Chegará a tempo e oportunamente?  Encontrará acolhida?

Porque toda carta tem a esperança de um gesto, um fato, um ato que a desate e que a faça existir, subscrevemo-nos;

Comissões de Direitos Humanos do Sistema Conselhos de Psicologia

Imprimir     Fechar